domingo, 17 de janeiro de 2010

A Viagem...

8 Janeiro 2010

5H00

Depois de uma noite não dormida fazemos o CHEK OUT do Hotel Skyna e rumamos ao terminal do Aeroporto Militar. São 5 da manhã e por estas bandas o símbulo TPA (Televisão Pública de Angola) abre muitas portas. Passamos 3 portões de control com militares armados e paramos directamente na placa repleta de aviões da FAA. Alguns deles de fabrico Russo. Encontramos uns militares, que descansavam em plena placa junto a um dos aviões,e perguntamos qual era o que nos levaria até Lobango. Não sabiam responder. O motorista “abandona-nos” nuns bancos no exterior de uma sala de embarque que se encontrava fechada mesmo junto à placa, e esperamos. Alguem apareceria. E apareceram…

5H30

Dois vultos de fato de treino, tipo “armário” abordam-nos e questionam o que estamos ali afazer!!!! Quem nos tinha dito para estar ali. Ao maior vou chamar Kabilá devido às parecenças físicas e comportamentais com o ditador do Kongo. Após tentativa de explicação da minha parte, Kabilá recusa-se a falar com o Pula e dirige-se ao nosso colega realizador Angolana falando com honras de prepotencia e groceirismo. Somos enxotados para fora da placa e recuamos duas “casas” (dois portões) . Kabilá era só o comandante da Base Militar.
Naquela meia hora tinham-se acomulado junto ao 2º portão, umas dezenas de pessoas com sacos de arroz , malas e respectivos animais de criação e estimação. Militares de baixa patente com coletes reflectores, pedem o primeiro e ultimo nome para “registar passageiro” e apontam para folha branca de sebenta. Era o “check inn”.
No meio da confusão aprecebo-me que não tenho a carteira. Na pressa de abandonar a placa sob as ordens de comandante Kabilá deixei a carteira no banco onde tinha estado. Após devida autorização desloco-me a correr nessa direcção. Passo novamente pelos dois portões fortemente armados e nada me dizem!!!!!!
LÁ ESTAVA ELA… no mesmo sítio onde a a tinha deixado. Ao lado, um civil sentado aguardava ,provavelmente, que Kabilá tambem o viesse buscar…
Regresso e mais uma vez nada me dizem nos postos de controlo. Comandante Kabilá ao ver-me grita: “Tu és um gajo com sorte”
Apercebo-me que está ao telemóvel e, já com os meus companheiros de viagem, ouço a converça:
“Jornalistas da TPA já cá estão sim… claro comandante, serão prioritários”.
Ficámos mais descansados. Kabilá tinha um superior que mandava nele… O TELEMÓVEL !!!!!
Finalmente seremos tratados com a dignidade merecida. Mandam-nos a todos para a sala de espera mais ao fundo, incluindo as dezenas de pessoas que ali se tinham concentrado à espera de uma boleia nos vários voos militares.

Passo a descrever a “sala de espera”:

Angar, com portão metálico de correr, sem luz nem janelas, cheiro a gasóleo, humidade de 100%, melgas zumbiam por todo lado, ao fundo 5 bancos compridos de madeira aguentavam o peso de mulheres grávidas, crianças e homens que terminavam a sua noite de sono mal dormida.
O nosso colega da TPA, ambientado com a situação, ocupa um dos poucos lugares restantes e dormita. Nós os dois olhamo-nos incrédulos perante a “cena”.

6H30

Amanhece e nós na “sala de espera”. Por vezes aparecem militares (fardados e outros nem por isso) a chamar por nomes. Familiares e amigos que tentam a sua sorte num voo.

8h00

Voo para Lubango.FINALMENTE!!!!!!
À boa maneira militar Africana formamos filas… do género Escola Primária. Mulheres e crianças incluídas
Ressurge Kabilá. Grita furioso com um desgraçado subalterno dizendo que o voo estava atrasado ( estava lá agora!!!! Desde a 5h00… isso não é atraso) e ele é que tinha culpa. Mais uma vez jornas da TPA primeiro!!!!
E fomos andando para o autocarro em filinha indiana… Eu encabeçava a fila escolar (qual chefe de turma) . Chegados ao “machibombo” constatamos que afinal não tínhamos sido os primeiros. Já havia gente dentro do autocarro. Eram Primos do motorista!!!!
Sob ordens militares são expulsos à força, com rasgos de violência.
Entramos. Finalmente. Alguns militares e outros civis também entram. Lá fora instala-se a confusão !!!!! Todos querem entrar no autocarro. Dentro, militares gritam:
-Fecha a porta!!!! Fecha a porta!!!!
Fora a multidão força a porta numa derradeira tentativa de alcançar o avião.
Dentro o motorista desobedece e mantém o machibombo parado. Cada militar fazia valer a sua patente gritando mais alto do que outro. Mesmo assim o corajoso motorista desrespeita as sonoras ordens e abre a porta traseira permitindo nova avalanche de gente.

10 min depois, e porque não cabiam mais ”sardinhas na lata” o autocarro arranca.
Percorremos a placa à procura do Russo gigante alado IL 450. E que grande que era aquele pássaro alado. Caso fosse necessário o autocarro entraria directamente no avião poupando nova confusão à saída.

Saída do autocarro.


Atropelos, gritos, malas caídas no chão. Militares organizadamente convencidos que ajudavam. A escada de entrada para o avião era do tipo electricista, com 10 degraus. Novamente, somos os primeiros a subir e…… o avião estava completamente cheio de carga com a população de 50 cubatas em cima!!!!!! De onde teria surgido tanta gente??. Segundo comandante Kabilá seriamos os primeiros entrar!!!
Alguém indica-nos os lugares… em cima duma palete de brindes Cocan2010.Afinal de contas não era mau de todo, era junto a uma das 4 janelas existentes em todo o avião .
Já confortavelmente instalados nos nossos lugares, apercebo-me que alguém grita na direcção do Tozé “ GASOSA ! GASOSA !
Fomos enganados! Afinal o “ Madié” que nos tinha ajudado a por a bagagem dentro do avião não era passageiro mas sim um estivador ocasional que pedia, furioso, retribuição pelo esforço dispendido.

Dentro do avião.

Gritos, choros de crianças, calor, calor, e mais calor… e aporta não fechava deixando passar mais gente pelas frinchas que se acomodavam por cima de pneus , malas e paletes de arroz. Em cima da antena do nosso carro de satélite alguns “alpinistas” instalavam-se confortavelmente para a longa viagem até LUBANGO.
Porta fechada.
Ainda com o avião parado, e a temperatura a subir, começamos a ouvir um militar graduado a gritar:
-Gatuno! Gatuno! Ainda bem que te vi. Vais preso!!! A roubar património do estado!
Um distraído passageiro distribuía brindes Cocan2010 pelos amigos.
-Ó Rogério, esse mano vai preso quando chegarmos! Fixa bem a cara dele!!! Continuava o militar na direcção do subalterno que (des)controlava as entradas no avião.
30 minutos de sauna tinham passado e continuávamos parados . Choros de crianças substituíam as habituais explicações de segurança que se ouvem nos voos… normais!
Senti-me um sortudo. Afinal ia virado para uma das 4 janelas do avião que por sinal até era uma saída de emergência !!!

9h00

Ruidoso e pachorrento o Russo IL 450 lá se mexe. A sauna transforma-se numa verdadeira sala de estar com ar condicionado e tudo! Esperamos mais 15 min por ordens da torre para descolarmos. Pelos nossos cálculos, devido ao peso, a pista teria de ter pelo menos 10km de comprimento…
Consulto o telemóvel e envio uma sms . Talvez se torne famosa e aparece num filme mais tarde.
Muito lentamente, o nosso Russo pássaro ganha velocidade. Silêncio dentro… rugido fora.
10km depois, e com os mosseques a forrarem a minha janela, levantamos o bico e muito suavemente afastamo-nos do chão. Poderoso, o IL450 estabiliza e eu tento descontrair. Abro o meu Netbook e procuro uma música para pintar o cenário. Coloco os auscutadores e começo a ouvir “Black or white” de Michael Jackson.

10h30

Descida e aproximação à pista da capital da Província da Huíla de fazer inveja a muitos pilotos da TAP. Mais uma vez constatámos que as pistas , por estas bandas têm mesmo que ter no mínimo 10km. NÃO PARAVA O PASSARO!!!
Antes de sair ainda fomos brindados com mais um comentário do graduado militar na direcção do ladrão de brindes:
- Vou-te perdoar! Já não vais preso. Uma Dama me convenceu a te perdoar.
Acompanhamos atentamente a demorada descarga do avião na esperança de que todo o equipamento tinha chegado e com as peças todas! Constatamos que afinal havia uma rede de ladrões de brindes Cocan2010. Bonés, cachecóis, sacos, palas saíam do avião que nem bagos de arroz caídos de saco roto.

Sobrevivemos. Se tinha dúvidas em relação ao meu medo de andar de avião, dissiparam-se todas após esta viagem.

No regresso vamos a pé…

1 comentário:

  1. Olá!
    Sou a irmã do Tó-Zé.
    Obrigado por nos deixares este registo, que nos permite ter uma ideia das condições actuais em Angola.

    De facto, depois dessa experiência não sei se o melhor não seria voltar a pé ... mas por certo o risco também será muito grande!
    Espero que a RTP no mínimo vos tivesse feito um excelente seguro de saúde.

    Beijinhos, desejo-vos toda a sorte do mundo e fico a aguardar por mais notícias.

    PS. Necessito do contacto msn do Tó-Zé.

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